sábado, 6 de maio de 2017

Boinas inflamáveis


QUENTURAS 

(ouvindo l’etranger)


olha 

é coito de bala à beira da chama
ao ventre do beco de um frêmito

ilha 

serpente de pedra e vidro
arrima aponta desapruma
assalta algelma desprega

centelha

e respiro é cais sem abrigo
ribanceira cumeeira abismo

fornalha

amares palavras vulcões
cantares recôncavos nus

desterros

aldeias por lupas e garras
matares a dor da iluminura

olha

lábio de bela à beira da lua
ao vinco do peito um berro

quenturas. 

outono de 2017
© antonio pastori
arte: Zippo Lit, Marguerite Chadwick

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Dos boinas livres II


BRINCANDO DE DEUS

O músico de
multiplasmas sorrisos
convida novembros
para toda anarquia
o cantor divagabundo
camufla estrelas
nas notas vagas
de violão e tequila
o poeta
fotografista
cata angústias
nas caras felizes
e a mulher
de sublábios pequenos
só queria
uma noite apenas
outono de 2001
© antonio pastori
arte: street art appareil photo

sábado, 25 de março de 2017

Dos oceanos noturnos


ENTRE O CAIS E A VENTANIA

São vertigens de sapatilhas
e oceanos noturnos em fuga
no cais da menina que dança


tem a fita
o parapeito
lumes vagos

e o adeus de uma canção.

instintos
uma canção sem vitrola

ela também rodopia
e faz vagar os mantras
da finitude
das solidões

um canção sem ouvidos nem línguas
uma canção só de olhos e mãos

um aceno
uma lágrima

são vertigens de boina e lutos
e desertos solares em silêncios
na crina da menina que dança

e o adeus de uma canção vem.

por ventanias
ou do que a borda das esperas
abandona 
março, 17
© antonio pastori
arte: Noyée - 1895, Jakub Schikaneder (1855-1924)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Na trilha dos beijos cruéis



BELAS BALAS IN BLUES

são teus versos que espalham a descrença das canções que conheço 
aqueles desgraçados que amassas sem trégua entre sacristias e balcões 
para restar só a chama da bala rasa ou tuas unhas manchadas de malbecs

sim, minha lady

são as mãos que troçam do ferrugem na vagabundagem dos raspões
é viela chapada de solidão porque não há nada mais além do meu blues

só metal em cinzeis espalhados no ocre das tintas 
e janelas molhadas por crias à toa de todas as revelias

ficam aquelas luas alquebradas em lábios nus
por lolitas inocentes na fuga dos beijos crueis

apenas um hiato de tempo que dança
por aniquilar poetas mulambos ao sol

há mundança de birutas
e atolagem de esperanças

no que realmente se acredita 
do que se possa arriscar na veia

o vento trepida agulhas nas vitrolas
são sacudidelas em temperanças

e eu sei apenas que nada nada sei.
ouvindo buddy em cismas de pessoas

e nada mais sei, David... 
e nada mais sei, Louis...
do que um três por quartos de fotografias.

© 2016 antonio pastori
arte: Janel Eleftherakis, “Playing the Blues #3


A Rota dos Pássaros Rubros (V)

O QUE RESTA DO PEREZ CRUZ


na cantina do baile de névoas
vem um sotaque em lume de espelhos
uma coroa por enxame dos bardos
vem a morte das troças sem linhos violetas

perto do que é rubro
da lua ser de tardinha
das horas em quereres livres

porque são lentas as veias e alquimias 
pelas aquarelas das ruas sombreadas

e se dedilhas os rios no decurso do tempo
inventas duas mil e uma das noites
antes do que queira à beira
virar anoitecer

perto do último incêndio
sem estradas de outonos

existe sim
existe alguma coisa por dizer…

pelo pousar das bicicletas 
pelo que resta do Perez Cruz

por ser forjado a guerras
no abandono dos ventos

por desenhar bolas japonesas
na trilha de olhares na neblina

mas o que resta é apenas a ópera dos vencidos
e se bem me lembro, nenhuma é o que parece

ao saber que relógios são pobres gaiolas velhas
e o tempo um desencanto nas mesas em contraluz

das cantinas de névoas poentes viventes
em dormências de temporais e saturnos

porque no mundo dos poemas em relicários
se bebe vida até a úlima gota do último dia

perto do que seja espera 
ou do que for para sempre

ali bem no meio da rua
em um sorriso na praça
a cortar o tempo à faca
além do que for adeus

porque roubaste do Perez Cruz
a mesma lua das horas livres
pouco ali do que foi de tardinha

e assim só vemos o rastro na rota dos pássaros rubros

de teus bailes suspensos corados de sangue e azul
a espelhar o poema entre as bicicletas na neblina.

junho, 2016
© antonio pastori
Arte: Wine Tasting - Camilla, Saturno Buttò © Tutt'Art

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

A lida das trilhas agrestes


OS CIGANINHOS E A ESTRADA DOS ZUNIDOS


os meninos, sim, em alvoroço na busca das abelhas
a tarde e a chuva combinam com os ditos olhos agudos e negros
e nada pode impedir mãos nervosas, cenhos oblíquos, mudezas  
mas este poema teima em ser o bardo dos desencantos
o que vai dizimar as colméias

os meninos, sim, entardecem os cataventos na jornada das abelhas
noite e frieza vinda do rio abrigam os dados olhos agudos e negros
e nada pode esconder bocas arfantes, suor na rubra face, miudezas
mas este poema teima em ser o mensageiro das adolescências
o que vai incendiar as colméias

os meninos, sim aproximam os cestos dos carvalhos na caça às abelhas 
o cruzeiro e as nuvens com chumbo afugentam os doidos olhos agudos e negros
e nada pode deter destinos crus, mortes anunciadas, malvadezas
do que este poema  seja o que for entre os hinos dos contentes
de quem foi se lambuzar nas colméias

das últimas árvores
ainda dá para se ver
a chuva de tarde novamente

e as abelhas, nobres vestais
as abelhas reinam na melancolia

e os ciganinhos, cara pálida
os poetinhas se mandaram com as mãos abanando  

salvador, 2011
arte: a little spanish gipsy (john bagnold burgess)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pela iluminura das canções



A GUITARRA DAS SOMBRAS 

Por dois portões na inocência desmedida dos parques dela
distâncias
gargalhavam
só um relógio derretia o tempo e a réstia de lábios esbaforidos
corredores
amuavam
quem havia de esperar a iluminura das canções ante à lágrima?
os livros
disciplinados 
quem iria de julgar a guitarra quebrada na parede azul circunscrita?
a vizinha
muda
o ódio de gritar um nome perto dos crisântemos, dos semáforos...
os carros
rígidos
o vício de conter as bordas sem ensaios, os palcos decapitados
os vidros
e a vitrola
só restam os meninos dados a contornos e bússolas profanas
a guimba
enleia
o quadro
pensa
a lua
relata
e os estilhaços
despencam.


novembro, 14
© antonio pastori
tela: touch life (self portrait) - j.kamp