quinta-feira, 7 de junho de 2012






Dos boinas livres


acaso, desejo
de tão arteiro, amanhece.
bendiz a inquietude e toda insônia.
sentir é palco de apetrechos
alma dada a verso quando nasce.
pedra tão doída em reticências.


Arte: Marion Bolognesi

terça-feira, 29 de maio de 2012



JOINHA 
Para Jorginho e Ana Ramos

manhãzinha vou 
a pedir carona
bicicletas voam
na mesma avenida
quando eles chamam
será que dá samba?

lá de dentro vem
o mesmo assobio
cantilena quase
minimalista
vou botar chapéu
me sentir artista
pra fazer do cio
todo ócio à vista

tudo jazz em tanto faz 
o que for de tanto mais

porque a tardinha cai 
neste rio vermelho
de jorginho e aninha
meu pós tudo enleio
a fazer joinha 
e sorrir com o dedo

para ter bela vista 
com belo horizonte
na estrada em vida
tantos para choques

tem que ouvir depois com marisa monte
a cada mil perdões com o chico buarque. 

escrito no bar Pós Tudo em Salvador, no outono 2007, e reescrito em homenagem a Jorge Ramos e Aninha Ramos no Recôncavo da Bahia, em maio de 2012.

Arte: Brooklyn blues small, Ryan Evans

segunda-feira, 7 de maio de 2012







 CASA DE SANTO NA TV E

Documentário dirigido por Antonio Pastori mostra, pela primeira vez,
terreiro fundado no século XVII em Maragojipe, no Recôncavo da Bahia


Neste 13 de maio, em comemoração aos 124 anos da assinatura da Lei Áurea, a TV E Bahia exibe às 19 horas o documentário Casa de Santo, de Antonio Pastori. Esta é a primeira vez que o filme premiado será exibido em televisão aberta. O documentário leva o telespectador a uma grandiosa e empolgante viagem pelos terreiros de candomblé de Maragojipe, no Recôncavo da Bahia. O diretor registra, pela primeira vez, o interior de terreiros que nunca haviam permitido a presença das câmeras e descobre indícios que podem mudar a forma como a História descreve a diáspora africana para o Brasil.


Um pouco de Casa de Santo

Poucas regiões brasileiras possuem a característica religiosa do Recôncavo da Bahia. A terra que circunda Baía de Todos os Santos e bate às portas do Sertão tem forte influência do Candomblé, religião trazida ao Brasil pelos africanos escravizados na época da colonização brasileira.

Casa de Santo, documentário dirigido por Antonio Pastori, traz como tema chave esta influência a partir dos rituais desses terreiros de Candomblé, preservados pelo povo negro que acredita na força de sua religião. As quatro nações da religiosidade de matriz africana estão retratadas com fidelidade e emoção. O filme percorre os principais terreiros das nações Jeje, Ketu e Angola e registra uma Festa de Caboclo, onde a raiz africana se mistura a influências indígenas e européias. Uma engenhosa tradução da diversidade étnica e cultural desta região da Bahia.

O filme tem cenas inéditas de rituais que nunca haviam sido mostradas de forma tão fiel, em uma reconstituição histórica. Terreiros que não haviam aberto as portas mesmo para os fotógrafos, deram licença para as câmeras deste documentário que mostra como os segmentos de cada nação são diferenciados pelo dialeto utilizado nos rituais, a liturgia e o toque dos atabaques.

É em Casa de Santo que Pastori documenta pela primeira vez, o Terreiro do Pinho, que segue os preceitos Jeje e foi fundado em 25 de dezembro de 1658 numa área que hoje pertence ao município de Maragojipe, a 133 km de Salvador. A equipe pôde registrar o lugar onde fica o que pode ser o terreiro mais antigo do Brasil, de linhagem Jeje – o que muda a forma de contar a história da diáspora africana.
“Na verdade, o Jeje é o povo Ewe Fon. Nós nos acostumamos a relacioná-los a como eles eram chamados na época, pela expressão Jeje, que na verdade significa 
‘estrangeiro’. Era um povo altivo e conquistador, o que explica esta espécie de apelido”, explica Pastori.
O candomblé assume um importante papel na formação da identidade cultural, étnica e religiosa do Recôncavo, é fortemente marcado pelo ritmo e pela música que embala cada Orixá. Casa de Santo mostra esta essência só encontrada no Recôncavo, a sua origem derivada dos candomblés implantados lá desde muito tempo com a chegada dos escravos, e como isto influência na vida das pessoas de lá, transporta-nos a um ambiente mágico através dos toques inspiradores e contagiantes, da música africana.


Musicalidade

A cultura do lugar, basicamente negra misturada aos toques do atabaque e do bongô componentes da música africana e presentes em todo o decorrer do documentário, nos faz observar o quanto é essencial a relação entre música e imagem no cinema. No documentário , o relato da religiosidade da cidade de Maragojipe traz  precisão e comunhão com esta musicalidade.

A equipe extraiu da cultura do povo de santo, a essência da sua religiosidade com elementos desse próprio meio com destaque para os instrumentos utilizados nas casas de santo o Rum, o Rumpi e o Le, atabaques sagrados e tocados por alabês.

A técnica de combinar os sons, é o que leva o espectador a “participar” dessa cultura, entender e compreender a sua linguagem. A dita casa de santo é onde está a mistura da natureza que se junta com a mistura de raças, onde o povo negro escravizado busca até hoje manter e viver fielmente a sua religião, o candomblé.


A cultura afro-brasileira está expressa também pela capoeira. “O Canto dos Escravos” aguça a sensibilidade do espectador diante das imagens mostradas no documentário. Ecoam as vozes benguelas em um arranjo com apenas voz e percussão. Além disso, contribui para o clima de proximidade evocado pelo canto, contrastando, assim, com a idéia de diversas manifestações culturais de matriz africana que constituem a raiz da cultura popular brasileira.

Em Casa de Santo, a trilha tem justamente esse papel, de nos aproximar daquela realidade, de passar um pouco da energia e da sensação de estar imersa/o em um ritual do candomblé, e cumpre maravilhosamente bem seu papel de fazer do cinema o resultado de um emaranhado de expressões artísticas, potencializando aquilo que talvez seja mais significativo em sua existência, nos tocar de alguma maneira.

É no terreiro, com luz iluminando a Mãe de Santo, que gira e dança. Que recebe e trabalha. É ali: os orixás se manifestam, a energia pulsa ao som dos tambores, a casa é de santo. Imperdível.



FICHA TÉCNICA
Casa de Santo
Duração: 44 minutos
Fotografia: Aristides Jr. e Antonio Pastori
Assistência de Produção: Jomar Lima
Roteiro, Pesquisa, Edição e Narração: Antonio Pastori
Pesquisa e Produção: Manoel Passos Pereira
Direção: Antonio Pastori

TV E Bahia
Domingo, 13 de maio
Horário 19 horas

Contatos para entrevista

(71) 9182 5063
ou mandando perguntas para
casadoverso@gmail.com

segunda-feira, 30 de abril de 2012


A GANDULA E A LENDA
Por Antonio Pastori


Definitivamente nunca fui com a cara do Engenhão.

Admiro o Botafogo, mais o de Garrincha, menos o de Heleno. E tenho afeto pelo Vasco, por conta do papai vascaíno.

Apesar disso, a tal ojeriza pelo estádio carioca prevaleceria: não era o jogo favorito de domingo.

Até porque, no outro lado das janelas digitais, estava lá o São Paulo tentando uma improvável classificação diante do Santos.

Mas o futebol tem a arte de pregar peças. E em um domingo de clássicos decisivos, de duelos imprevisíveis, de gigantismos, testosterona à solta nos gramados brasileiros, foram a graciosidade e esperteza de uma gandula que roubaram a cena e conquistaram esse coração, mais o do poeta, menos o do analista.

Uma gandula em pleno Botafogo x Vasco, no Engenhão.

Bola pela lateral, Fernanda Maia é o nome dela. Com rapidez digna daquelas passagens de bastão em revezamentos de atletismo, entrega a redonda para Maicossuel. Uma reposição cadenciada ao ritmo veloz de uma contraataque, a arrancada de Márcio Azevedo, o cruzamento, o gol do Loco.

Uma cena a produzir polêmicas e bate bocas intermináveis. Uma cena inversa ao que mais se critica nesses personagens anônimos. muitas vezes quando não somem com ou sem a bola, passam uma eternidade para colocá-la de volta à ação.

Uma gandula travou o dedo deste escriba diante do controle remoto. Levou à lembrança dos tempos de Nelson Rodrigues, de Mário Filho...

Ou dos deuses célebres, irônicos e farsantes que regem a magia dos templos da bola.

Tempos e templos muito mais de Maracanã, muito menos do tal Engenhão.

Porque a esperteza e a graciosidade da botafoguense Fernanda Maia serão lembradas para sempre em um estádio tão carente de histórias e de identidade.

Serão invocadas ao benefício da dúvida sob a égide da paixão.

Paixão pelo ofício ou pela estrela solitária?

Ela que já foi candidata e (não tem jeito) será a musa do Botafogo daqui por diante, tem todo o direito.

A dúvida que ganha patamar de lenda ao bel prazer deles, os velhos deuses irônicos e farsantes.

Posto, que me desculpem os feios de agora, mas a Fernanda é fundamental.

E bate um bolão.



sábado, 31 de março de 2012




Da gentileza no jardim dos quereres



Vem o dedilhar apenas das pequenas pétalas
honrarias do tempo em cultivar amarelos
no que poderiam antever e descolorir gentilezas
por acalentar indevidos amanheceres


passeio descompassado só dos dedos
o que ao debruçar em parapeitos ao redor
os meninos da tarde só avistariam
a figura esguia, a bengala, a boina.


mas a investigação continuava
ele e as pétalas
quantas eram no bouquet?
quinhentas, seiscentas?


calculava rápido
enquanto separava os ramos
e ordenava os seixos úmidos
em diagramas poligonais
surgidos
expostos
capturados...


o amarelo tinha a imperfeição dos domínios
brotava e explodia em cada incursão daquelas mãos ossudas e firmes
ganhava cetro, o reino, a hegemonia diante de begônias e gerânios 
o amarelo tinha a superação das culpas.


os meninos da tarde avançavam pescoços ansiosos ao limite do parapeito
não conseguiam ouvir além do farfalhar das folhas mortas em pequenos redemoinhos
não conseguiam capturar além dos esparsos ruídos
seria um prece?
um discurso?


mas o que se viu
foi do dedilhar das pequenas pétalas
surgir a nuvem de notas desconstruídas
descompassadas
a música a rondar acima dos tempos
o tempo de ouro e de madeira
de pérolas finas
de corpos gris a bailar em Bahia, em Luanda  
o tempo da figura esguia, da bengala, da boina
e a névoa tomou conta da moldura
no ambíguo dominante
de um amarelo absuluto
de adeus e de encantos.   

sexta-feira, 2 de março de 2012

Joinha
ou um guardanapo amassado em 2007

manhãzinha vou 
a pedir carona
bicicletas voam
na mesma avenida
quando tu me chamas
será que vai trovejar?


lá de dentro vem
o mesmo assobio
cantilena quase
minimalista
vou botar chapéu
me sentir artista
pra fazer do cio
meu ócio também


e a tardinha cai 
neste rio vermelho
de jorginho aninha
meu pós tudo enleio
a fazer joinha 
e sorrir com o dedo


para ter bela vista 
com belo horizonte
na estrada em vida
tantos para choques


tem que ouvir depois com marisa monte
a cada mil perdões com o chico buarque 

 



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vê este quadro de Dalí




A rota dos pássaros rubros

onde estás sei que bailas e bailas entre espelhos e sanhas
ao fundo dos cantos, velhos caboclinhos e lumes solitários 
eu entrego a estrada aos olhos por desejar demais o último dos fumos
onde vais sei que vagas e vagas entre rios e cicatrizes ao cais da cidade inventada
porque apenas te respiro aos sinais de me considerar suspeito às tuas madrugadas varadeiras
onde queres sei que ofegas e ofegas entre santos e preces ao fundo das fugas esquecidas nos relógios
apesar disso, a tua face guarda o mesmo jardim, como andares luz e janelas há muito alquebradas
e eu escapo na incidência de nos sentirmos sós por não havermos mais
e eu procuro o céu dos contentes em cataventos nas estrelas
e eu espalho a dor do tempo morto na delicadeza dos quereres
quero como quero
aplacar a ira dos temporais
domar a incontinência das lembranças
e mandar de vez a palma da mão na frieza dos vidros embaçados
para enxergar a tua dança
porque acaso não queiras
bailas
sei que bailas
e como nódoas em corações selvagens
eu espalho a saudade liberta que se esconde entre belas palavras
aquelas que o vento da noite não arranca das faces amorosas
mas também sei
sei do tempo
o tempo que te expulsa das fantasias 
o tempo com tuas faces geladas de fé 
é dessa tarde que me despacho 
me vou em placas e faixas contínuas
e escolho a estrada e os contagiros
escolho o sol rubro e os primeiros passarinhos
pioneiros da mesma solidão
testemunhas de que o intruso poema ainda busca insano
o último fumo leve na rota das asas em chamas.