quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Um sorriso




Os céus de Ginestá

os céus vão no teu ombro, companheira
há um sorriso de asas firmes no limiar dos terraços
vem dos teus olhos a altivez das ternuras frente a lâmina
e há um sorriso de fibras tensas quando o dia acorda cedo

os cantos lúgubres te chamam, vez que o sol é o mesmo
porque há um sorriso de vinho e fumo na imensa cordilheira
e se o poeta queda às armas em tardes sem luz nos cemitérios
há o sorriso de marina a ciganar espanhas em rubro verso

os céus vão no teu ombro, companheira
a dourar os cem anos gris por entre folhas de exílio
a gana é de lutar por beirais do manto livre na imensa cordilheira
e o amor é pele curtida, passo seguido aos pirineus e teus umbrais       

e o amor é memória de sonho e carne quando los niños partem em correrias
e te apertas o peito e o século quando se esvaem no abandono das tormentas
quando bocas se calam por medo e a manhã não resplandece nas cordilheiras 

o que é pátria?
o que é nuvem?
como se chama povo?
como se chama livre?
como se chama esperança?

e também vão no teu ombro, companheira
os lábios frios de homens e mulheres e a lembrança dos terraços
porque com pão ou sem pão, doces e duros ainda são os céus da resistência
e porque sempre levaremos este sorriso para nunca mais aniquilar os sonhos




 



   

sábado, 4 de janeiro de 2014

Janeiros....




Livraria dos realejos

Ouvindo Paciência

as ruas me pegam pela mão
convidam o poeta para sentir os graus
os fios, a alma elétrica da noite
a vida concebe, recebe, bem sabes

as ruas me pegam de jeito, na veia
e são iguais os carros em métrica
e a vida não para, a vida rara
a vida trata, destrata, retrata
 
sim
vida é assim

o  mesmo fotógrafo na praça das sépias
o mesmo livreiro daquele beco de lonjuras
o mesmo realejo tirador de sortes dos lumes

as ruas me pegam em contramão
e queimam os termômetros
não vejo quando os fios explodem
não vejo almas estendidas
a eletricidade nasceu do empinar de pipas

por isso
as ruas me alargam.
a solidão nasceu na palma de uma mão

e as ruas me deixam
dançar por aí nas valsas 
de rostos em perdas 
e boas vindas


Janeiro, 14
Arte: João Mottini - Fundação Bunge

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sublimações






Bonita


tragas 
ao olhar 
as ilhas

amealhas
ameixas
amanhos

tragas
com sol
aldeias

pontilhas
desejas
escancaras

e beijas
bonita.

o tamanho
do tamanho
que sentes

beijas,
bonita

e tragas,
profundamente.


Rio de Janeiro, 2011
Arte: Pino



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A lida dos ímpares





PARA AMANHÃ III 

(Por um velho dia de blues)

Ouvindo Dimming of the Day

Aos parceiros de música e versos Marcelo Chalvinski, Ricardo Tosto, Ivon Albuquerque e Eduardo Alves


quero a velha casa dos versos ao redor de meus ouvidos
e o rio nada mais que o rio que sempre mora em um abraço

acenar aos pares a lida dos ímpares
seguir ao tempo do espanto dos jardins 

porque flores nascem de afetos
sorriso se semeia em pé de nuvem

quero canções de espera, o desejo de estradas como pano de fundo
e o sol nada mais que o sol na imprecisão entre o laranja e o amarelo

quero promessa de encontros no vazio dos silêncios sem tinta nos rostos
e os segundos inventados pelos grilos antes do que se mata no entardecer
   
gilmour imerso na vitrola em dimming of the day
o sol nada mais que o sol de linda onde for e o que serei

a ponta dos lábios que desenham antes do beijo
o adeus suspenso que existe na ponta dos dedos

quero só a fidelidade das velhas garças que se vão
e a melancholia inquieta de Hart em solos de Joe

o amor malcriado das paixões
um concerto de pirilampos & violinos

o que há de mais incerto no mistério de um olhar distante
o cheiro da chuva antes dos cajus bailarem loucos de vesguras

queria assim sem meio a meio
o meio fio sim molhado no limo
mas por caprichozinho do senhor destino...

pimpa, escorrego!

lá se foi o poetinha de cara pro chão
não tinha corrimão nem citação de rodapé

não deu pé

espatifou certezas
esparramou os símbolos
esculhambou as tintas

e lá se foi a tal da beleza plantar feiúra na cara do menino
e o que era brasa borrou cinza na imprecisão dos amarelos

onde foi azul? meu azul, a cor mais quente
azul meu azul, ali me leia a cria das cores 
   
são os anos, os versos, o livro, ontem e amanhã

por rumar em sinfonias acreditar em vínculos
por doar verdades aos mantras e teus acasos
por alinhar gentilezas, assinar de boa e dar fé.
    
porque os dias frios são dias
e óbvios seguem e morrem

- ah! não!, dizem os párias inocentes sob intro alcance 
- eles vivem de encontros fortuitos e ânsias de lonjuras
óbvios são os passarinhos que surfam em pelo de lince

- “e eu estou vivendo pela noite que roubamos
preciso de você no escurecer do dia
preciso de você no escurecer do dia”

e é por isso 
tão simples entre as batas e o mesmo jeans     
quanto tu és para sempre dona do meu blues

eu quero um dia pela sanha de liberdade  
só gritar nos beirais de iletrados pulmões

as canções de tracy em dados marcados ao bom peso
por saber que a saudade sempre fica na primeira fila

o tear das formigas em equilíbrio nas longarinas
estrelas sem pontas, espreguiço em cancela, moviolas antigas

quero malbecs hermanos nas ilhas dos zíngaros, imantados
drops de abril recitados e a voz de billie ecoando no inverno

andar por aí, por lá e cá, ora, ora
há milênios e milênios que ali sangra
na lembrança inconclusa de todo verso alexandrino

por que?
porque preciso de você no escurecer do dia
preciso de você no escurecer do dia

ou o que nunca foi tempo reinará
ou o que é para ser amanhã
nunca será.


Rancho das Aldeias, Casa dos Versos, Janeiro, 14

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Por entre frestas de luz






Senhorinha

foi a última vez que alcancei teu espectro enquanto a noite vinha
eram fiapos de luz embebidos de silêncios miúdos na tarde caída
porque ainda era dia e isso se devia às garças dadas às saliências do sol

teu andar em vãos retos abria clarões entre as casas  e movia ladeiras
colhia olhares de soslaio pelas janelas por querências de amanhecer
porque já era noite e isso assemelhava escuros e claros em dedos tintos

e meninos paridos das portas já sabiam antes de você como os rios eram criados
eles ganhavam das velhas garças a réstia de iluminuras que ia dar nas estrelas
porque se ainda não era madrugada, o brilho do sereno era dado a relógios

e teu andar desenhava a cidade em contornos de seixos
não a cidade que existe, mas aquela sabedora dos grilos
namorada do rio, criatura do andar do andar do andar descalço

porque se a rua dos velhos sapos ainda discute o que é dia? o que é noite?  
as ventanias adormecem na mesma casa daqueles poemas moleques e insones        

sim, senhorinha, porque o sol já vem e isso cabe a você
prolongar o menino caminho e avisar do fim dos silêncios aos teus sanhaços.     

 Na estrada, 2011     

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mistura de versos na tarde em queda





Aldeia in Blues


Tarde é a que muda de cor
Tarde? já passou da sua hora

Noite é mistura de tinta
Noite? já passou da sua hora

Quero madrugadas sem culpas
e manhãs todas mañanas
nascidas da insônia e da rua
gaitas são paridas de passarinho

Cata toda lua matreira
solidão nasce de rio
estrela é peça sapeca
de quebra cabeça
do céu

Tarde é a que muda de cor
Tarde? já passou da sua hora

Noite é mistura de tinta
Noites são para todas as horas

me faz blues
Aldeia dos mundos

és manta da constelação
és mãe do lume
és só e tudo
és farol.

Aldeia, dezembro de 13


domingo, 29 de dezembro de 2013






SUSPENSO
Ouvindo Telhados de Paris


bailo por ondas de mim
entre persianas violetas
e teimo sol na revoada 

porque sumo
e faço em ti
dos contornos em contraluz
às sombras da afeição

arribação

teimo
teimo sim
em sorrir no que te regas
dessas portas entreabertas
de um tempo em soslaio
às cismas da suspeição

insolidão

e deito
nas manhãs de ti
dos novembros
nos arvoredos
na revoada

no que vela e
vida me leva
ao que te encantas
na passarada.


Novembro, 13
Ilustração: Street-Art de Nick-Walker -Paris-França