quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Dos Boinas Livres






PALCO DE ANDANÇA

acaso, desejo
de tão arteiro, amanhece.
bendiz a inquietude e toda insônia.
sentir é palco de apetrechos
alma dada a verso quando nasce.
pedra tão doída em reticências.



junho,12
© antonio pastori
arte: i don't need anybody, agnes cecile 

sábado, 8 de outubro de 2016

A rota dos pássaros rubros (Parte IV)



DANZA RUBRA

de tarde pássaros rubros 
arrancam os últimos mênstruos
e brincam em tombadilhos
antes de caiar o porvir

À tarde convém
domar respiros
e mudar as vias de olhar
e colher as ruas para cair

só por tardes
abstraia
quando não
o vir a ser

pela tarde,
alpercatas
boas de seguir

entretardes
posta elétrica
onde voa à mercê

amanhã
é dar de troças
nunca é tarde
para ir

por estradilhas
que vem das asas
rubras asas
do entardecer. 
 
novembro,14
© antonio pastori
foto: kenton brade

Sobre lágrimas imperfeitas

A GAROTA DO ADEUS

assim que a tarde vier
em minúsculos saltos de nuvens daninhas
e deixar o tácito fulgor em raios desnudos 

aquele espectro ganha o horizonte
espadular
adunco
incólume

o cigarro entre dedos trêmulos
a cadenciar as imaginárias setas
pernas no vai e vem
limites ambíguos de solidão

assim que os jardins deixarem de lado as maledicências do dia
e ganharem contornos impróprios a aceitar da noite e os seus 

a inconclusão de gestos poda o contorno dos pássaros
garça
arguta
mercúria

o cigarro aceitando o bico do salto fino
a incrustar no asfalto tragos de culpas
mãos no entra e sai
território livre para a sofreguidão

assim que a noite chegar
plena rainha de fartos mênstruos

aquela corrida desenfreada assusta os restos
de gente e passarinhos nos gradis do parque

a capitular
o adeus
única

a guimba morta
o salto fino

e em contra luz ao fundo
o vulto a domar uma imperfeita lágrima.
sem adornos.

inverno, 2005
arte: a person on the pier, jens malmgreen 

sábado, 1 de outubro de 2016

Vila Júpiter


CAMALEFRAN


onde se faz o tempo?
as tampas 
os meses são invenção das professoras de matemática

as trancas

tombadilhos
armadilhas

o que é ir?
o que foi vai?
o que é foi?
o que foi ser?

nem vem, vô!

os anos foram feitos para esquecermos de morrer
e as folhinhas de calendários são as janelas com os números de onde vem os amigos

lá de trás vem a bola dos candeeiros
os relógios nasceram de pique esconde.
céu bem noitinha saiu da besunta de dedos

porque todo mundo sabe que lá em cima tem o pintor do céu

mundo rio
fundo cai  
estrada ri 
tempo cria asa
e depois faz trim

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Canções de outubro



O ANJO PETA E A BAILARINA NA JANELA

para Ivon das Aldeias & Inês Amélia

anjo Peta e seus incêndios
cora a bailarina na janela

é um nobre andarilho
e não é dado a regressos 
para que delicadezas?

Peta sangra 
no que a tarde
breve em luz, leva.

vermelha.

crava 
nunca 
côa

em frevo
nunca
jazz

Peta lança
no que a hora 
troça em crua paz

vermelha

nuca
nunca
ombro

âmbar
nunca 
nós

e se... 
poema vem 
e embala

Peta
mete
bala

por teus incêndios
ao que der na telha.

a finos demônios.
por dançar e volver

só a bailarina tem olhinhos de retróis 

para que debruçar na espreita? 

só ela pode ver
o que a tarde leva

só ela
só ela
a bailarina na janela

pode derramar para colher
o que a chuva deixa rosa.

o poeta
nunca 
o pranto

o rio
nunca 
a foz. 

outubro de 2014
arte: Joan Miró, Dancer (1925)

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Rodopios no aguaceiro



A CHUVA DE PINA

Queres a cidade
a adentrar saliências
a bailar dos vértices
ao pleno vazio

dopas as vias
por aquietar querências
a levitar em beiras
do dia mais tardio.

Vem, Pina 
Vem no aguaceiro.

gotas serão teu contraluz
domas devaneios e devassidão

Vem Pina
Vem no aguaceiro.

setembro de 2014
Foto: Still do documentário Pina (Win Wenders, 2014)

sábado, 29 de março de 2014

Poema depois das seis



SÁBADO QUE VEM


doer o poema no cume do dedo
adular as notas ou violentá-las
gritar ou calar

não saber.

o escritor ao lado dos cataventos está ali
e tua fogueira se vai antes ou quando quiser ir

todas as portas foram abertas para chover
todos os livros foram jogados ao mar
todos olharam em ânsias de compadecer
todos os cantores cantaram sem parar

todos
mudos

espumas,
à plainas
sem medos

todos saíram para passear.



Março, 14
Arte: Lindsay Malboeuf