quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Madrugada ludo


46 balas e uma rua suja
para cummings & marcello

de que adiantam os outdoors para as pequenas prisões
se o medo de ir além de quem me fita
é a certeza do desejo de me livrar das culpas
e aproveitar sem mesuras arbustos e descampados  

o que me resta é respiração falseada 
bólidos dos tragos em febris compassos

não olhas mais para este vulto 
sem mistérios óbvios 
é tarde da noite

é tarde para ocultar entardeceres na textura dos olhos vermelhos
é tarde para transmutar desejos no torpor das mãos trêmulas
é tarde para falar de paixões no circo não tão místico das artérias

é tarde para não lembrar

a primeira vez que beijei aqueles lábios com sabor estranho
a segunda vez que busquei paredes frias para trocas
é tarde da noite

tão gasto é o amassado das ruas
tão becos são o que me reservam as mariposas
a fumaça é boa o vapor é de quinta
tão gasto é o tempo amassado das ruas

a luz certamente longínqua de uma festa ou homicídio
minha vida de nada posso dopar ou perceber
em morte ou beijo nas sombras dos ombros
ao redor dos insetos na ruas das balas, 46
em descomunhão com os relógios 
em imperfeições com os ingênuos

de que adianta dá duas...
   

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Walkman na mochila!


Música

odiei one trick pony

com todas as forças
em sessões anti terapia

não substituí por round midnight
ou burlei os incautos com ever for me   

bobby mc ferrin sabe olhar pelo buraco da fechadura
os que passam nem vêem a porta

Mochila aberta a mariposas


Casca de bala


poetas são cascas

descascas

das balas
dos verbos

artefatos

uma chance
um mantra
um gole

um sorriso aos gritos  
a silêncios à toa

poetas

os dentes doem
como as pernas

poetas são tísicos
ao sabor das bocas.

 

Mais uma da mochila


Atíria


esta poderia ser a última poesia
por guardar o inverno das estradas
por carregar o conteúdo das guimbas
porque seria melhor estar dormindo

esta poderia ser a última poesia
por lembrar dos cascalhos de alcântara
por deixar os andarilhos suspensos
porque o café simplesmente acabou

seria a última
mas ela não deixa

a teimosa da borboleta dissimula
conspira nos becos inabitados
e insiste com este textinho vulgar

a infeliz me empurra
me devora em fraquezas
e dobra o meu adeus
com a asa do dedo

mindinho. 

Diogo, Litoral Norte 2003

Descalços de agosto


Senhorinha

foi a última vez que alcancei teu espectro enquanto a noite vinha
eram fiapos de luz embebidos de silêncios miúdos na tarde caída
porque ainda era dia e isso se devia às garças dadas às saliências do sol

teu andar em vãos retos abria clarões entre as casas  e movia ladeiras
colhia olhares de soslaio pelas janelas por querências de amanhecer
porque já era noite e isso assemelhava escuros e claros em dedos tintos

e meninos paridos das portas já sabiam antes de você como os rios eram criados
eles ganhavam das velhas garças a réstia de iluminuras que ia dar nas estrelas
porque se ainda não era madrugada, o brilho do sereno era dado a relógios

e teu andar desenhava a cidade em contornos de seixos
não a cidade que existe, mas aquela sabedora dos grilos
namorada do rio, criatura do andar do andar do andar descalço

porque se a rua dos velhos sapos ainda discute o que é dia? o que é noite?  
as ventanias adormecem na mesma casa daqueles poemas moleques e insones        

sim, senhorinha, porque o sol já vem e isso cabe a você
prolongar o menino caminho e avisar do fim dos silêncios aos teus sanhaços.     

 Na estrada, 2011     

No caminho do Caijá


Semba
Para lívia, márcio, kiko e belpa

lá onde a cidade termina
tem roda de samba
bem de tardinha

é lá.

cada música é batizada por cheiros
e senhorinhas com lábios no umbigo
roubam as sandálias dos passarinhos.
maragojipe, 2011

Perto da Cruz Caída


sobre a estrada, setembros


por vielas ou tocas
rastreias o caos

(desvencilhas)

e do cais ao tato
avanças em seta
e trôpego aos cães
balbucias no cio

(destrambelhas)

domar a via
do mar de amar
os cumes

(dos joelhos)

As cadeias sem crime
As cadeiras de vime

(vasculhas)

e setes
e saltas
sobre a estrada
setembros

sem doer sarado
sem cantar dobrado
sem calar os timbres do sol.

salvador,  2011