sábado, 30 de março de 2013




Etta Blues

achei pontas soltas
a domar em dor 
a esvoaçar
o escancarar 
do farsesco

e quebrar
espatifar
o estrilar
do vento

dentro.

arranquei sim as pontas
derrubei criados mudos
e segui destrambelhado

a perambular
a endoidecer
e inventar
a cura.

fora.

porque eu vou ouvir Etta em Misty Blue
só me deixem ouvir Etta em Misty Blue

fechem as janelas 
tranquem as portas

e só me vejam com Etta em Misty Blue
eu quero apenas Etta em Misty Blue.

fechem o vento 
apaguem o sol

Etta, só a estrada...   

- Serve Saint Louis, baby?  


     

domingo, 24 de março de 2013




Bardos Castanhos

eu sou o apanhador dos teus campos 
e meu olhar respinga outonos em cantigas de mudas
não amealho as estradas ao longe 
e faço do que esperas 
a porta escancarada, 
as janelas libertas.

derivo as perdas onde tu amansas
ao equilíbrio das tuas ancas 
o sacolejar dos sonhos, 
o espelho dos dias.   
não nasci de primaveras.

habituo os dedos às circunferências. 
às superfícies lisas.
e sou futuro diante do teu frêmito
aperto as pedras, 
os soluços diante da tarde.

e sou castanho a caminho  
poente e diminuto
infinito de sandálias nas mãos.

sou adeus e te dou boas vindas
e cheiro das sacadas de onde o tempo desmora
o teu amor desmedido de sol.

sábado, 23 de março de 2013

Olhares em âmbar






Crepúsculo em San Vicente


Avançou pelos corredores da casa.

o olhar em âmbar
a equilibrar os passos 
como um pêndulo

sob o que restava de luz
as sombras mediam

quisera lembranças, caixotes, silêncios
cabiam ali respiros luminares deslimites

deixava o corpo em frêmitos
havia a mansa sedução      
o afagar dos que amaram

as sombras iam
o dia se deixava
e teu espectro dado
a pertencimentos da casa

redivivos
quadriculares

e aquele mundo a assistir
o entreabrir dos vínculos
o fechar das portas
o deixar dos que amaram

quisera crepúsculos, gaiolas, silêncios
haviam noturnos, taças, estilhaços   

não cabia mais
a casa.

ssa, 23 mar 13

terça-feira, 12 de março de 2013





FARFALHAR

Arte: Prerana Kulkami

andar
entardecer
olhar
colher

das janelas
o mar das vias
afins

Sementes de arco-íris urbanos
a rua em perpendiculares
andares

cozer

mundaiar
fotografias
luminar
redizer
a cria

em manta o sol
dos olhares
dos pilares
dos andares
em mim.


ssa, 13

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Fevereiros febris















Lua de lince

lua a ferir
a brindar os insones
lua a burlar

a querer errar.

bola crua
branca imensa

cair brincar pingar

fugir do sereno
lumiar felino

desejo a ti atriz

lua a bulir
a beirar os meninos
lua a dormir

a sós
apois.

insones somos
nus.

fevereiro 2013
foto: Joe Sulik





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fevereiros



Todo tempo

traz a rua pra dentro
acolha no demais 
o cais desses gritos
a pedra o monolito

minúsculo

faça a coisa
incerta
rasga a canção
de flor ou carvão

fortuito

pas das ilhas
traz a rua
pra dormir junto
e dê ao muito

o minuto.

fevereiro de 2013


Sem retrovisor





Andarilhas

Dançarina vem 
e amassa mansa
o medo de ir

mas só faça sorrir
para criar andança
Na mancha do fim.

fevereiro de 2013
Foto: Kelly Martin Blog